Geosocialismo: a necessidade de formar um novo movimento socialista mundial

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foto: Tomi Mori

Este texto representa uma posição pessoal. É produto do desenvolvimento social dos últimos anos e da luta socialista nesse período. Seu objetivo é lançar um discussão que considero absolutamente indispensável no interior do movimento socialista mundial, principalmente, entre os milhares de ativistas políticos que, hoje, abraçam a causa por uma sociedade igualitária, sem classes sociais, socialista.

A necessidade de formação de um amplo movimento pelo Geosocialismo não é nenhum capricho pessoal. Decorre do desenvolvimento social do modo de produção capitalista e dos graves problemas criados por ele. De todos os problemas criados historicamente pelo capitalismo, o mais importante, hoje, é a crise climática.

Crise climática, trabalhadores, camponeses pobres e povos originários

A crise climática já é, atualmente, um dos maiores problemas enfrentados pela grande massa de trabalhadores, camponeses pobres e povos originarios. Ao contrário do que apregoam jornalistas e comunicadores pagos pelas empresas capitalistas e por seus poderosos meios de comunicação, não é um problema para as gerações futuras, dos nossos filho ou netos. É um problema que, hoje, tem afetado a vida de milhões de trabalhadores, camponeses pobres e povos originários em todos os continentes.

Apenas para ilustrar essa afirmação temos a seca em vários países da África, da América do Sul e, também da Ásia. A seca já têm provocado a falta de água e, também, o aniquilamento da produção agrícola em amplas áreas de vários países dos quatro continentes. O outro lado da mesma moeda são as inundações que destroem as plantações e moradias, principalmente, da população mais carente. As inundações dos últimos anos provocou o deslocamento de alguns milhões de pessoas. É, particularmente, a população mais pobre que vive em áreas inundadas. As precárias moradias, é bom lembrar, mesmo em favelas nas beiras de rios, representam o esforço de vários anos ou mesmo de uma vida, para trabalhadores obrigados a lutar arduamente pela própria comida, e são destruídas por temporais e enchentes impiedosas que, em alguns casos, abrangem vários quilômetros.

Nos últimos dias vimos a fúria de dois furacões, o Matthew, que afetou vários países, notoriamente o Haiti, com quase mil mortos e milhares de desabrigados. Dias depois, vimos o furacão Haima atingir duramente as Filipinas. O Haima, localmente chamado de Lawin, não matou centenas de pesssoas ou mesmo milhares porque, anteriormente, um outro furacão, Haiyan, ocorrido em 2013, havia deixado um inferno com milhares de mortos e, hoje, a população já é mais consciente e desloca-se para os centros de evacuação. Ainda que o número de mortos tenha sido inferior a uma centena(não existem dados concretos por conveniência política do governo), deixou milhares de desabrigados no norte das Filipinas, com a destruição de suas frágeis moradias e a agricultura de subsistência. No caso do furacão Haima, sabemos que destruiu completamente as moradias do Povo Aeta, que habita as montanhas do norte da ilha de Luzon, a principal do arquipélago filipino.

A lista dos problemas causados e de pessoas e espécies afetadas pelas mudanças climáticas aumenta sistematicamente, mas, não é possível listar todos neste texto.

O principal problema da crise climática é que ela afeta não apenas as condições de vida dos trabalhadores e das massas oprimidas, mas, ameaça a sua própria existência. A continuidade do sistema capitalista nos próximos anos irá provocar a a morte de milhões de trabalhadores,  camponeses pobres e etnias. Serão mortes provocadas por calamidades climáticas como furacões, inundações e ondas de calor(basta lembrar que nos últimos anos, na Índia, a temperatura no verão tem oscilado entre 45 e 51 graus centígrados) e doenças provocadas pelas mudanças climáticas.

Se antes o capitalismo já matava de fome, agora, também, já mata de sede. Também na Índia, este ano, milhares de pessoas tiveram que abandonar suas moradias em algumas localidades pela falta de água, até para cozinhar. Muito antes que o atual século acabe, a falta de alimentos e água, se não destruírmos o sistema capitalista, levará à morte de milhões de trabalhadores. Milhares já estão morrendo, principalmente, na África e Ásia.

A possibilidade de que, nos próximos anos, a crise climática leve a uma devastadora crise capitalista de consequências difíceis de se imaginar é uma realidade que, acredito, deve ser encarada por todo ativista socialista sério.

Socialismo e ciência climática

O agravamento e compreensão da crise climática, na segunda metade do século XX, deu origem a um novo ramo científico, a Geofisiologia, chamada também por alguns cientistas de Ciência do Sistema Terrestre, que mostra que o planeta Terra possui como parte constitutiva um sistema de auto-regulação, que propicia a habitalidade da qual a vida de todas as espécies existentes é dependente. Dizer que existe um sistema único que regula o sistema terrestre é completamente diferente de afirmar que os sistema terrestre é uma soma de todos os eco-sistemas existentes, como expressam, erroneamente, algumas correntes e ativistas socialistas.

É, justamente, desse desenvolvimento científico que decorre a necessidade de formação de uma nova corrente socialista mundial que incorpore essas conquistas científicas que, proponho, seja chamada de Geosocialismo.

Uma nova esquerda Geosocialista que explique, claramente, para as amplas massas exploradas e oprimidas do planeta a gravidade da crise climática. A necessidade imperiosa de destruir o sistema capitalista, que gera essa crise, como única possibilidade de escaparmos das consequências dessa crise climática.

Uma nova esquerda Geosocialista que lute, não só pelas bandeiras históricas do movimento socialista, mas, também, que lute pela habitalitade, pela manutenção da existência de todas as espécies que vivem no planeta, inclusive, os seres humanos. Isso, longe de ser um desejo romântico, é uma necessidade imposta pela existência de um sistema de auto-regulação terrestre. Sem a manutenção da maior parte das espécies existentes – algumas já gravemente ameaçadas de extinção-, sem a conservação consciente dos oceanos, que formam dois terços da superfície do planeta, não será possível a existência dos seres humanos e de uma sociedade socialista.

Movimento pelo Geosocialismo

Neste momento histórico, a crise climática, cuja dimensão é desconhecida mesmo pela ciência, mas cujas consequência já são sentidas por alguns milhões de trabalhadores e camponeses pobres do planeta, cria a necessidade, creio, de se formar um amplo movimento pelo Geosocialismo. Um movimento não partidário ou supra-patidário, por todos aqueles ativistas socialistas que, sem abandonar os partidos em que militam ou que acreditam, se disponham a travar uma luta comum anticapitalista e geosocialista.

O objetivo deste texto é, antes de mais nada, abrir o debate sobre a necessidade do Geosocialismo e da necessidade urgente de se realizar reuniões ou conferências para podermos debater e definir melhor os contornos de um movimento mundial pelo geosocialismo. Não existe nenhum programa ou plataforma de um movimento pelo Geosocialismo. Será necessario formá-lo, rapidamente, no calor dos combates que estamos travando e nos marcos de uma discussão fraterna e, certamente, acalorada.

Tomi Mori

Tokyo, 29 de outubro de 2016.

 

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