Marxismo e geofisiologia – por Tomi Mori

furacao

foto: NASA/Scotty Kelly

MARXISMO E GEOFISIOLOGIA

Introdução

Este texto é dirigido aos miltantes marxistas dispostos a compreender o século XXI e as tarefas que se colocam. Os que já compreendem e estão satisfeitos com suas análises podem dispensar a leitura do mesmo.

No entanto, os marxistas que, neste momento histórico, percebem que a discussão existente está longe de ser satisfatória e procuram desenvolver as suas posições, irão encontrar nas próximas linhas uma nova vertente de análise. Ainda que polêmica e minoritária, certamente, irá permear a discussão no marxismo revolucionário dos próximos anos.

O autor esclarece que se trata de um texto de abertura de debate e não de conclusão. A atitude científica e a ciência, como tal, sempre foi um processo coletivo, onde os indivíduos jogam um papel decisivo no seu desenvolvimento. Isso vale para a ciência, no geral, e também para o marxismo, como um de seus ramos revolucionários.

A discussão que propõe mereceria muito mais que um artigo ou um simples livro. No entanto, essa necessidade está fora das possibilidades do autor, neste momento. É a urgência do debate que obriga a produção deste texto de apenas alguns parágrafos. Esta afirmação não visa obter complacência. Os problemas, fraquezas e insuficiências, provavelmente, são mais evidentes para aquele que escreve estas linhas.

A decisão de lançar a discussão em condições precárias é resultante da convicção inabalável de que a crítica impiedosa de quadros mais capazes e preparados teoricamente e o debate coletivo produzirá o resultado necessário. Nos últimos dois anos, o autor, devido às suas debilidades teóricas, adiou a abertura do debate, mas, a extrema urgência e gravidade da realidade mundial não permite mais o silêncio.

Fotos: Tomi Mori

Uma breve apreciação da Geofisiologia

A Geofisiologia, como novo ramo científico, se desenvolveu a partir da segunda metade do século XX e tem como seu principal expoente o cientista britânico James Lovelock, uma das mais brilhantes mentes da história humana e, portanto, dos séculos XX e XXI, no qual viveu e ainda vive.

Por seu caráter radical e revolucionário, a Geofisiologia, desde seu início, têm sido objeto de crítica implacável e seu desenvolvimento ainda insuficiente é produto da sua juventude e da crise do modo de produção capitalista. Na essência, seus postulados se chocam abertamente com a existência deste modo de produção, ainda que, Lovelock, não seja um cientista marxista e que suas concepções sociais sejam idealistas. Por se chocar contra o atual modo de produção, não se pode esperar que os fundos de investigação científica, cujo objetivo é a produção de lucro para os capitalistas, sejam utilizados para o desenvolvimento desse ramo revolucionário da ciência. Além desse fato, é possível agregar a falta de tempo necessário devido a amplitude de campos que essa ciência abrange.

Para as pessoas comuns e, também, para muitos cientistas, a Terra não passa de um planeta morto composto por terra, mar, ar, onde existe vida. A descoberta revolucionária de Lovelock é de que a Terra, o planeta que habitamos, ao contrário da visão convencional é um superorganismo vivo, que só pode ser compreendido como um todo e não pela soma das partes componentes. Da mesma maneira que a economia mundial só pode ser entendida plenamente como um todo e não como a soma de todas as economias nacionais. Afirmar que a Terra é um superorganismo vivo não quer dizer que, como nós, tenha função reprodutiva, pernas ou raízes. Se trata de uma metáfora para facilitar a compreensão do sistema terrestre que, Lovelock, batizou como Gaia, o nome da deusa grega da terra.

É um superorganismo vivo no sentido de que é capaz de se auto-regular mantendo as condições ambientais propícias e confortáveis para a existência da vida. A própria vida é parte indissolúvel deste sistema regulatório. Sem a existência da vida, a Terra seria mais um planeta morto a orbitar o Sol, assim como Vênus, Marte ou Júpiter.

Geofisiologia se ocupa, portanto, em compreender como este superorganismo funciona. Como uma consistente e rigorosa ciência, estuda as propriedades deste sistema planetário e seus mecanismos de regulagem como clima e temperatura.

A necessidade da incorporação da geofisiologia ao marxismo

O marxismo é uma ciência viva e em desenvolvimento. No entanto, a sua história é marcada por crises, que refletem as contradições materiais da existência humana. Um dos aspectos dessa crise é não ter conseguido compreender a evolução da geofisiologia e a necessidade de sua incorporação ao instrumental marxista até o momento.

Ainda que de maneira tardia se faz necessário essa incorporação ou fusão. Essa necessidade só se tornou evidente devido à principal crise vivida neste início do século XXI, provocada pelas mudanças climáticas, que já ocasionou a extinção de várias espécies e promete extinguir uma número extraordinário de outras espécies, inclusive a humana da qual fazemos parte.

Essa fusão é a única que pode propiciar uma apreciação científica de qual deve ser a atitude revolucionária, marxista, frente ao planeta, no qual mais de 7 bilhões de seres humanos vivemos. Disso decorre uma estratégia revolucionária mundial, distinta das defendidas pela maiora das correntes componentes do marxismo atual e, consequentemente, de táticas derivadas.

A título de ilustração podemos citar infindáveis exemplos. O marxismo que defende a melhoria das condições de vida pode defender, por exemplo, que cada família existente possa ter, neste exato momento, uma simples geladeira(algo em torno de 1 a 2 bilhões de geladeiras), um automóvel, cinco ou seis filhos, um igual número de animais domésticos como cães, gatos, cabritas, cavalos e burros? Quais seriam as consequências imediatas para o planeta se conseguissemos realizar isso em apenas alguns anos?

Uma gama enorme de pesquisas científicas relacionadas às mudanças climáticas recentes mostram que isso é absolutamente inviável se ainda quisermos sobreviver à crise climática atual.

Então, que devemos defender os marxistas na atual situação?

Não é objetivo deste texto discutir a questão climática e, portanto, isso deverá ser motivo de outros artigos ou livros, que são absolutamente necessários para desenvolver o debate.

É possível marxismo revolucionário sem Geofisiologia?

Para responder essa pergunta, antes se faz necessário uma apreciação para a polêmica afirmação de que a principal crise deste século é a crise climática. Polêmica porque não existe e não poderia existir consenso ou unanimidade nesta questão.

Se tivéssemos a possibilidade, tempo e recursos para fazer uma pesquisa entre os marxistas para saber o que se considera o principal problema poderíamos, de forma aleatória, citar alguns ítens como guerra, fome, desemprego, que poderiam ser considerados o mais importante.

Para o autor deste artigo, certamente existem guerras, fome, desemprego e outros problemas que afligem a humanidade, no entanto, nenhum se compara a crise climática, já que esta esta levando, objetivamente, a um massivo número de extinção de éspecies e já se transformou em ameaça concreta aos seres humanos, ainda que uma parte considerável das fileiras marxistas se negue, ainda, a enxergar essa realidade.

Nos últimos anos já morreram milhares de pessoas devido às ondas de calor, assim como animais domésticos como vacas, cavalos e cabritas. Milhares de pessoas já morreram devido à fome provocada pela perda da safra agrícola, afetada por um número crescente de secas e enchentes. A crescente escassez de água também têm sido responsável pelo crescimento das mortes entre várias espécies. E, também, por doenças e epidemias provocadas pelo aumento da temperatura, como a dengue, por exemplo. Uma extraordinária crise alimentar mundial começa a se tornar uma realidade cada dia mais próxima.

Para dar uma resposta revolucionária, marxista, a essa crise climática atual é absolutamente indispensável a incorporação ou fusão da geofisiologia ao marxismo. Ou seja, respondendo a pergunta formulada, se pode afirmar categoricamente, com base em todos os estudos científicos recentes que, sem essa incorporação ou fusão, não existe nenhuma possibilidade de existência de um marxismo revolucionário no que resta de vida no atual século. E, ainda que esse debate provoque divisões e crises nas fileiras marxistas, infelizmente, não existe atalho para resolver o impasse histórico no qual nos encontramos.

Tokyo, 18 de agosto de 2016.

Referência bibliográfica:

James Lovelock:

Gaia: A new look at life on earth, Oxford University Press, 1979

The ages of Gaia, W. W. Norton& Co, 1988

Gaia The practical science of planetary medicine, Gaia Books Ltd, 1991

Homage to gaia, Oxford University Press, 2000

The revenge of Gaia, Allen Lane, 2006

The vanishing face of Gaia, Allen Lane, 2009

A rough ride to the future, Penguin Books Ltd, 2014

Artigo publicado, em agosto de 2016, no site: http://www.aflecha.com

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