Mudanças climáticas vistas por uma jovem de Mindanao

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Jam, estudante de Mindanao, nas Filipinas

Entrevistamos Jam, uma estudante de Mindanao, nas Filipinas. Mindanao é a segunda maior ilha do arquipélago filipino.

LP: Onde você nasceu? Pode contar-nos sobre o seu lugar?
Jam: Eu nasci em Clarin, Misamis Ocidental, na Ilha de Mindanao. Mas minha família mudou para a cidade vizinha quando eu completei um ano, porque meu pai obteve um trabalho no governo local. Ainda me lembro de quando eu era pequena, na escola primária, quando realizávamos nossa cerimônia de hasteamento da bandeira. O calor do sol não nos incomodava muito. Mesmo que ficássemos no pátio até as 8:00 da manhã. O ambiente era ameno e não tínhamos que nos preocupar com névoas, obviamente, porque estávamos na área rural. Os peixes podiam ser pescados próximos à praia porque havia muitos deles. No entanto, a terra começou a perder a sua fertilidade, porque os agricultores, naquela época, já estavam usando petroquímicos.

LP: Você mora no mesmo lugar ainda?
Jam: Não. Moro, agora, na cidade de Iligan, onde estudo e trabalho.

LP: O que você está estudando?
Jam: Eu estou atualmente terminando minha graduação em Comunicações, Comunicação e Estudos de Mídia, na universidade. Durante meu terceiro ano na faculdade, decidi ter um envolvimeno maior na comunidade através da participação em um movimento chamado Resistência ao Carvão. O Movimento de Resistência ao Carvão, como o próprio nome sugere, é uma aliança de organizações sem fins lucrativos e de povos, em Mindanao, para demonstrar o poder da massa contrário ao estabelecimento de usinas a carvão em Mindanao, particularmente, nas cidades de Iligan, Kauswagan e Ozamis. O movimento lançou uma marcha climática de 110km com a participação de mais de 200 pessoas, para manifestar a resistência da comunidade. Desde esse importante evento, comecei a participar de outros movimentos. Desta vez de camponeses, pescadores e pobres das nossas áreas rurais, e fui incorporando a educação sobre mudança climática. Como adiá-la através da introdução da agricultura orgânica, ajudando-os, também, em sua luta pela posse da terra.

LP: A mudança climática tem afetado sua cidade natal, Iligan City ou outras partes da ilha de Mindanao?
Jam: Hoje, em nosso lugar e, especialmente, nas áreas ou comunidades nas quais eu estou envolvida, os agricultores tanto os das terras baixas como os das terras elevadas estão realmente sofrendo com esta temporada que chamamos de El Niño, onde há calor extremo. Plantações de algumas áreas de planície, onde há um maior abastecimento de água ou irrigação têm menos problemas. Mas, para aquelas terras baixas que são dependentes da chuva ou, geralmente, em terras altas, as plantas tendem a morrer e o solo começa a ser infértil ou não mais arável. Os agricultores não podem cultivar suas terras. Agora, é difícil, para eles, terem comida para consumo e meios de subsistência. Eles são forçados a pedir dinheiro emprestado apenas para sobreviver durante os 8 meses inteiros da temporada do El Niño.

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A maior parte da safra de milho, no ano passado, foi perdida, em Mindanao, por causa da seca.


LP: O governo afirmou que daria sementes para os camponeses, como subsídio àqueles que perderam suas colheitas, isso resolve o problema?
Jam: Isso é realmente importante. Quero compartilhar claramente, aqui, nosso ponto de vista. O governo disse que forneceria as sementes, se ocorresse perda da safra. Isso é bom. O que não é bom é a qualidade das sementes que estão dando. Os agricultores pobres não precisam de sementes que são híbridas, porque essas sementes não podem sobreviver em estações como a que mencionei, o que significa que elas não são resistentes. Dar este tipo de sementes pode ser comparado a dar para uma pessoa que sofre de uma doença grave um analgésico genérico para aliviar a febre. Não é o que os agricultores precisam. Eles precisam de sementes orgânicas ou naturais que possam ser resistentes a qualquer tipo de clima. Eles têm que reabilitar o solo primeiro, através da interrupção do uso de petroquímicos nas suas plantas. O triste é que o nosso próprio governo incentiva os agricultores a usar petroquímicos no cultivo de suas terras através da aprovação de leis relacionadas com a sua agenda. É difícil, se o nosso próprio governo não está conforme com as esperanças que temos em mente. As pessoas estão sofrendo. O governo ainda não percebeu a importância da agricultura orgânica. Eles podem ter aprovado uma lei em relação à ela, mas os representantes locais não a estão implementando. Eles ainda distribuem fertilizantes químicos.

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Arroz afetado pela seca em Mindanao

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LP: Li que, no último período, a maioria das províncias nas Filipinas foi atingida pela seca. Isso foi verdade?
Jam: Sim, como foi relatado por GreenPeace Filipinas. Eles foram capazes de documentar casos nas regiões de Luzon, Visayas e Mindanao. Nós, aqui, temos apenas Mindanao no nosso escopo.

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Mudas morrendo por causa da seca em Mindanao

LP: A crise climática afetou as crianças e jovens em seu lugar?
Jam: Definitivamente, sim. Em casos como este, as crianças são as mais vulneráveis. Podendo afetar, principalmente, sua saúde e nutrição. Houve casos de desnutrição, tosse, resfriados comuns e diarréia, mencionados pelos moradores quando estive nessa área.

LP: Como você se sente vendo tragédias climáticas, no seu país, como o furacão Haiyan?
Jam: O furacão Yolanda / Haiyan foi tão devastador. Sinto-me culpada como ser humano. Sei que de alguma forma somos parte dessa catástrofe. Alguns dizem que é feita pelo homem e planejada sobre uma agenda, como afirma uma teoria da conspiração sobre o HAARP. Mas, no entanto, sei que esse é o resultado da atividade humana. Mudança climática é perfeitamente normal, mas com este tipo de ritmo, não é. As mudanças climáticas não devem ser tão rápidas e destrutivas.

LP: Me entristece dizer isso, mas, o planeta que você irá viver será muito diferente daquele onde eu vivi, se não pudermos mudar esse caos climático que criamos. Como você se sente quando olha para frente? Você pode imaginar viver em um mundo que será diferente do que você está vivendo agora?

Jam: Estou imaginando uma distopia total, se a situação continuar assim, ou ficar pior, deus me livre. Mas continuo a ser positiva e esperançosa sobre a salvação e preservação da ecologia. Nós ainda temos que espalhar a mudança e consciência sobre o fim da vida na terra. Nós sempre procuramos apontar a importância e o terror que está por vir, porque as pessoas tendem a esquecer ou não se importam. Eu não posso culpá-los, porém, com a tecnologia e conveniência que temos na mão, não nos importamos muito com o que vai acontecer com a natureza. Posso dizer que a agenda capitalista tem sido tão bem sucedida em injetar isso na mente das pessoas. Mas, pelo menos, agora estamos fazendo tudo ao nosso alcance para que seja o contrário.

LP: A maioria dos jovens com quem conversei sobre as mudanças climáticas concordam que será mais difícil sobreviver no futuro. Mas, mesmo sabendo disso, vivem uma situação semelhante a de uma vaca indo ao matadouro. Aparentam não reagir para mudar a situação. Você acha que essa atitude possa mudar no futuro?

Jam: Pode soar clichê, mas como diz o ditado “A juventude é o único futuro da sociedade”, eu continuo a acreditar e rezar para que a juventude se levante nessa brecha. Pode ser que não sejam todos, mas, pelo menos, um número significativo de jovens com sólidos princípios, que possam corajosamente levantar suas demandas contra os responsáveis. Eu já ouvi falar de um grupo de jovens, nos EUA, lutando em sua própria defesa e processando o governo por não proteger o país das mudanças climáticas. Isso derrete nossos corações, sabendo que há jovens fazendo este tipo de iniciativas, sem orientação dos mais velhos. No nosso contexto, no entanto, continuamente tentamos aumentar a conscientização dos estudantes universitários, secundaristas e, até mesmo, jovens fora da escola, através da realização de discussões e fóruns. Uma das melhores maneiras de envolver esses jovens e incentivá-los a se preocupar com esta questão é deixá-los ouvir o testemunho real das pessoas afetadas. Eles gostam mais de ouvir outras histórias do que nossas palestras. Talvez os fatos sejam importantes para dar suporte aos divulgadores da realidade, mas, conquistar os corações e a atenção dos jovens exige um método diferente.

LP: Você tem alguma mensagem para os jovens como você?

Jam: Eu só rezo para que os jovens comecem a pensar criticamente e tão livre quanto os pássaros. Os jovens não devem limitar-se às suas zonas de conforto. Os jovens devem sair das correntes invisíveis criadas pelos capitalistas; devem pensar que não nasceram apenas para pagar contas e depois morrerem. E, finalmente, pensar que esta é a nossa última chance.

Artigo publicado no site: http://www.leftpage.net

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