Trotsky: Sovietes e Revolução

Apresentação

Os acontecimentos dos últimos dias no Brasil, com o escândalo envolvendo o seu presidente, Temer, coloca à prova da história todas as correntes da esquerda revolucionária brasileira.

O Geosocialismo, que defende uma visão radical do papel da esquerda, neste momento em que além da crise, econômica social e política, somos obrigados a enfrentar a brutal crise climática, só pode contribuir nessa luta resgatando a experiência do proletariado mundial.

Foi com essa intenção, que me vi forçado a fazer esta tradução, de um trecho de um texto de Leon Trotsky, em algumas poucas horas, de uma discussão que considero primordial para qualquer vitória revolucionária. Este texto faz parte de todo o debate que Trotsky desenvolveu desde o ano de 1925 até julho de 1940, poucos dias antes de seu assassinato. São os escritos sobre a China, que somam mais de 500 páginas e que, em parte são desconhecidos dos militantes brasileiros, pela lamentável ausência de tradução. São contribuições de um dirigente maduro; dirigente da Revolução Russa de 1917 e da luta contra a burocratização do regime revolucionário. Representam uma escola indispensável para os revolucionários que, independente das organizações em que militam, lutam hoje, no Brasil, para acabar com o governo Temer e não se dispõem a capitular frente a uma saída de estabilização do regime burguês, com a eleição de um novo carrasco, que só poderá continuar, no quadro de crise atual, o que Temer começou.

Dedico a tradução deste trecho do texto de Trotsky à camarada Marize, que enfrentando as bombas lançadas pela polícia militar no protesto do Rio de Janeiro, ainda teve tempo de me contar pelo celular o que ocorria, no meio da fumaça das bombas lançadas contra os manifestantes e a pancadaria.

Tomi Mori

Tokyo, 20 de maio de 2017

 

Leon-Trotsky3

Na resolução de fevereiro do CEIC(Comitê Executivo da Internacional Comunista), os representantes do Comintern, “Camarada N. e outros”, são responsabilizados pela “ausência de um Conselho de Representantes(soviete) eleitos, em Cantão, como um órgão de insurreição”. Por trás dessa acusação, na realidade, encontra-se uma surpreendente admissão .

No artigo do Pravda (nº 31), escrito com base em documentos de primeira mão, foi afirmado que um governo do Conselho de Representantes tinha sido estabelecido em Cantão. Mas nenhuma palavra foi mencionada para indicar que o Conselho de Cantão não era um órgão eleito, isto é, que não era um Conselho de Representantes, pois, como poderia haver um Conselho de Representantes que não fosse eleito? Aprendemos isso com a resolução. Vamos refletir por um momento sobre o significado desse fato. O CEIC nos diz agora que um Conselho de Representantes é necessário para efetuar uma insurreição armada, mas nunca antes desse momento. Mas, vejam! Quando a data para a insurreição é estabelecida, não há nenhum Conselho de Representantes. Criar um Conselho de Representantes eleitos não é uma questão fácil. É necessário que as massas saibam pela experiência o que é um conselho de representantes, que compreendam sua forma, que tenham aprendido algo do passado que permita que acostumem-se a um Conselho de Representantes eleitos. Não havia sequer um sinal disso na China, pois a palavra de ordem dos Conselhos de Representantes era declarada uma palavra de ordem trotskista, precisamente na época em que deveria ter se tornado o centro nevrálgico de todo o movimento. No entanto, quando, na confusão, se marcava uma data para uma insurreição, para esquivarem-se de suas próprias derrotas, eles tiveram que inventar um Conselho de Representantes. Se este erro não é posto à tona, a palavra de ordem dos Conselhos de Representantes pode ser transformada em um laço para estrangular a revolução.

Lênin, em seu tempo, explicou aos mencheviques que a tarefa histórica fundamental dos Conselhos de Representantes é organizar, ou ajudar a organizar, a conquista do poder de modo que, no dia seguinte à vitória, se tornem o órgão desse poder. Os epígonos, e não os discípulos, deduzem disso a conclusão de que os Conselhos de Representantes só podem ser organizados quando a hora da insurreição bate na porta. Transformam a ampla generalização de Lênin, posteriormente, numa pequena receita que não serve aos interesses da revolução, mas a põe em perigo.

Antes que os Conselhos de Representantes bolcheviques, em outubro de 1917, conquistassem o poder, os Conselhos de Representantes dos SR(esserristas) e mencheviques haviam existido por nove meses. Doze anos antes, os primeiros Conselhos de Representantes revolucionários existiram em Petrogrado, Moscou e várias outras cidades. Antes, o Conselho de Representantes de 1905 foi estendido para abarcar os moinhos e fábricas da capital. Foi criado em Moscou, durante a greve, um Conselho de Representantes dos gráficos. Vários meses antes disso, em maio de 1905, uma greve de massa, em Ivanovo-Voznesiensk, formou um órgão dirigente que já continha todas as características essenciais de um Conselho de Representantes operários. Entre a primeira experiência de criação de um Conselho de Representantes operários e o gigantesco experimento de criação de um governo dos Conselhos de Representantes, passaram-se mais de doze anos. Evidentemente, tal período não é absolutamente necessário para todos os outros países, incluindo a China. Mas pensar que os trabalhadores chineses são capazes de construir Conselhos de Representantes com base na pequena receita, que substituiu a ampla generalização de Lênin, é substituir o pedantismo impotente e importuno pela dialética da ação revolucionária. Os Conselhos de Representantes devem ser formados não na véspera da insurreição, não sob o lema de tomada imediata de poder, porque se a situação chegou ao ponto da tomada do poder, se as massas estiverem preparadas para uma insurreição armada sem um Conselho de Representantes, significa que houve outras formas e métodos organizativos que possibilitaram a realização das tarefas preparatórias para assegurar o sucesso do levante. Então, a questão dos Conselhos de Representantes torna-se de importância secundária e é reduzida a uma questão de técnica organizativa ou meramente a uma questão de denominação. A tarefa dos Conselhos de Representantes não é meramente lançar o apelo à insurreição ou realizá-la, mas conduzir as massas para a insurreição através dos estágios necessários. A princípio, o Conselho de Representantes mobiliza as massas não para a bandeira da insurreição armada, mas para reinvindicações parciais, de modo que só mais tarde, passo a passo, as massas sejam levadas para a bandeira da insurreição, sem dispersá-las na estrada e sem permitir que a vanguarda fique isolada da classe. O Conselho de Representantes aparece frequentemente e, principalmente, em conexão com greves que têm as perspectivas de desenvolvimento revolucionário, mas são, nesse momento, limitadas apenas às reinvindicações econômicas. As massas devem sentir e compreender, durante sua ação, que o Conselho de Representantes é sua organização, que organiza as forças para a luta, para a resistência, para a autodefesa e para uma ofensiva. Podem sentir e compreender isto não pela ação de um único dia nem, em geral, de qualquer ato único, mas da experiência de várias semanas, meses e talvez anos, com ou sem interrupções. É por isso que somente uma liderança de epígonos e burocrática pode impedir o despertar e o ascenso das massas de criar Conselhos de Representantes, em condições quando o país está passando por uma época de convulsões revolucionárias e quando a classe trabalhadora e os camponeses pobres têm diante deles a perspectiva de tomar o poder. Ainda que esta seja uma perspectiva de um dos estágios subsequentes e mesmo que esta perspectiva só possa ser compreendida nessa fase por uma pequena minoria. Tal foi sempre a nossa concepção dos Conselhos de Representantes eleitos. Nós avaliamos os Conselhos de Representantes como aquela forma organizativa ampla e flexível, acessível às massas que acabam de acordar nos primeiros estágios de seu despertar revolucionário; e que é capaz de unir a classe trabalhadora em sua totalidade, independentemente do tamanho do setor que, nessa fase, já amadureceu até o ponto de compreender a tarefa da tomada do poder.

Alguma prova documental é realmente necessária? Aqui, por exemplo, é o que Lênin escreveu sobre os Conselhos de Representantes na época da primeira revolução:

“O Partido Operário Social-Democrata Russo (o nome do partido naquela época) nunca recusou-se a utilizar, em momentos de maior ou menor impulso revolucionário, certas organizações não-partidárias do tipo dos Conselhos de Representantes eleitos, para fortalecer a influência dos social-democratas sobre a classe trabalhadora e consolidar o movimento social-democrata “.

Pode-se citar a volumosa evidência literária e histórica desse tipo. Mas se poderia imaginar que a questão é suficientemente clara sem elas.

Em contraposição a isso, os epígonos converteram os Conselhos de Representantes em um desfile organizado onde o partido simplesmente veste o proletariado na véspera da tomada do poder. Mas este é precisamente o momento em que descobrimos que os Conselhos de Representantes não podem ser improvisados em 24 horas, como uma ordem, com o objetivo imediato de uma insurreição armada. Essas experiências devem, inevitavelmente, assumir um caráter fictício e a ausência das condições indispensáveis para a tomada do poder é mascarada pelo ritual externo de um sistema de Conselho de Representantes. Foi o que aconteceu em Cantão, onde o Conselho de Representantes foi simplesmente nomeado para observar o ritual. É para aí que a formulação do epígonos nos leva.

***

Durante as polêmicas sobre os acontecimentos chineses, a Oposição foi acusada da seguinte suposta contradição flagrante: Enquanto a Oposição, desde 1926, defendia a bandeira de Conselhos de Representantes para a China, os seus representantes defendiam contra a palavra de ordem dos Conselhos de Representantes, para a Alemanha, no Outono de 1923. Em nenhum outro ponto, talvez, tal pensamento político escolástico expressou-se tão claramente como nesta acusação. Sim, nós exigimos para a China um início oportuno para a criação dos Conselhos de Representantes, como organizações independentes de trabalhadores e camponeses, quando a maré de revolução ascendia.

O principal significado dos Conselhos de Representantes seria o de opor os trabalhadores e camponeses à burguesia do Kuomintang e à sua agência o Kuomintang de Esquerda. A bandeira de Conselhos de Representantes, na China, significava, acima de tudo, a ruptura com o suicida e infame “bloco de quatro classes” e a retirada do partido comunista do Kuomintang. O centro de gravidade, portanto, não baseava-se em formas organizacionais vazias, mas na linha de classe.

No Outono de 1923, na Alemanha, era apenas uma questão de forma de organização. Como resultado da extrema passividade, hesitação e atraso da liderança do Comintern e do Partido Comunista da Alemanha, o momento de um chamado propício para a organização dos Conselhos de Representantes eleitos foi perdido. Os comitês de fábrica, devido à pressão de baixo e por vontade própria, haviam ocupado no movimento operário da Alemanha, no Outono de 1923, o lugar que sem dúvida teria sido mais bem ocupado pelos Conselhos de Representantes se houvesse uma política correta e ousada por parte do partido comunista. Nesse interím, a agudeza da situação atingiu o seu ponto mais acentuado. Perder mais tempo significaria, definitivamente, perder a situação revolucionária. A insurreição foi finalmente colocada na ordem do dia, com muito pouco tempo de sobra. Levantar a palavra-de-ordem dos Conselhos de Representantes, sob tais condições, teria sido a maior pedante estupidez concebível. O Conselho de Representantes não é um talismã com poderes onipotentes de salvação. Numa situação como a que então se desenvolveu, a criação apressada dos Conselhos de Representantes só teria duplicado os comitês de fábrica. Teria sido necessário privar os últimos de suas funções revolucionárias e transferí-los para os conselhos recém-criados e ainda completamente sem representatividade. E quando isso deveria ser feito? Sob condições em que cada dia contava. Isso significaria substituir a ação revolucionária por um jogo mais pernicioso em frívolas organizações .

É incontestável que a forma organizativa de um Conselho de Representantes pode ser de enorme importância; mas apenas num momento em que fornece um reflexo oportuno da linha política correta. E inversamente, pode adquirir um significado não menos negativo se for convertido em uma ficção, um fetiche, um bagatela. Os Conselhos de Representantes alemães, criados no último momento, no Outono de 1923, não teriam acrescentado nada politicamente; eles só teriam causado confusão organizativa. O que aconteceu em Cantão foi ainda pior. O Conselho de Representantes que foi criado as pressas para cumprir o ritual era somente uma máscara para o golpe aventureiro. É por isso que descobrimos, depois de tudo terminado, que o Conselho de Cantão parecia um antigo dragão chinês simplesmente desenhado em papel. A política de puxar cordas podres e dragões de papel não é nossa política. Defendíamos contra a improvisação de Conselhos de Representantes por telégrafo, na Alemanha, em setembro de 1923. Defendíamos a criação dos Conselhos de Representantes, na China, em 1926. Estávamos contra o Conselho de Representantes fantasma , em Cantão, em 1927. Não há contradições aqui. Temos aqui, em vez disso, a profunda unidade da concepção da dinâmica do movimento revolucionário e suas formas organizativas.

A questão do papel e da importância dos Conselhos de Representantes eleitos, distorcida, confundida e obscurecida pela teoria e pela prática dos últimos anos, não foi esclarecida, no mínimo, no projecto de programa.

Tradução de Tomi Mori

Leon Trotsky on China, Pathfinder Press, 1978

Trecho do texto: Summary and Perspectives of the Chinese Revolution

Uma outra versão online pode ser encontrada em marxists.org sob o título The third international after Lenin

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